Um Porto percebido

20131216-231137.jpg

Perguntem-me, gente do mundo, o que aconteceu entre um Porto de há uns anos, poucos, e o Porto de hoje, de 2013. Perguntem-me e eu não responderei coisa alguma porque não sei, simplesmente.

Tenho memória certa dessa cidade. Conhecia-a. Era cinzenta, sim, como diziam. As ruas eram intratáveis, sim, como diziam. O Porto fechava às 19h, acompanhando o mesmo fecho de um comércio tradicional meio morto. Lembro-me bem do barulho das 19h, do Porto. Repentino, metálico, absolutamente inesperado para quem passava desatento. Vuuuuuuum!, e um estrondo seco mas estridente, no final. Eram as guilhotinas das lojas. Eram as grades de uma cidade com horário.

Tenho memória certa dessa cidade. Que tragédia. Como não percebíamos que o ouro estava ali e o tratávamos por metal barato, dado quase? Lembro-me bem: para nos divertimos – não fosse S. João ou o Porto campeão – íamos para uma zona escura da cidade, cheia de armazéns virados discotecas, sem estória, sem cidade, lugares de lugar nenhum.

De nada me serve a memória certa. Não preciso mais dela, a não ser para me lembrar ao que não quero voltar. Descobrimos o ouro, portuenses. Qual cidade cinzenta, ritmada pelo barulho das guilhotinas, sem vida, sem coisa alguma?
Desapareceu tudo, ou quase. Somos a cidade do futuro, sem jamais deixar de olhar o passado. Sabemos ser cosmopolitas sem deixar de ser bairristas, oh!, tantas cidades que não o sabem – caindo no ridículo estilo pseudo-citadino.

Somos a segunda cidade da Europa a gerar mais valorização e interesse (TripAdvisor, 2013), somos a cidade do pequeno negócio, da pequena loja, enorme, ainda assim, na inovação, na criatividade e no saber oferecer.

Somos a cidade, portuenses, que em 2013 recebeu mais de dois milhões de turistas estrangeiros que provavelmente regressarão para uma visita mais demorada, com mais amigos.

Somos uma cidade que sabe divertir-se já não em lugar nenhum. Vimos para a rua, seja nas Galerias, nos Clérigos ou noutro lugar, e mostramos que somos jovens e percebemos a cidade. Em troca damos não apenas uma cidade estrondosa aos milhões de turistas como damo-la a nós próprios. Merecemos. Foi uma conquista e tanto.

Fotografia: blog Viver o Porto

Com as etiquetas , ,

Press updater

20131204-193331.jpg

Enquanto leitor da imprensa nacional e de alguma internacional, vejo com alguma dificuldade uma certa imprensa virgem, sem esquerda ou direita, alocalizada. Não quero declarações editoriais de interesses na primeira página mas manchetes com um facto seco?

A propósito – o Libé é um bom exemplo do contrário – e no rescaldo dos resultados do inquérito PISA.

“De repente. De repente não, que disparate o meu.”

Aprecio grandemente pessoas com uma atenção particular à linguagem. Especialmente à própria, à que sai da boca para fora ou da caneta para o papel. Parece-me, de resto, uma verdade de importância extemporânea, ainda que hoje, num tempo do plágio linguístico, sem pessoalidade alguma, essa verdade se eleve.

Ópio

Parece mais credível hoje, a cada encontro das esquerdas, que o ópio do povo se vai distribuindo ora entre o futebol ora entre um soarismo tristemente pobre e de um tempo que não lhe pertence.

A luz de Lisboa

20131119-234212.jpg

Não tendo por hábito ler literatura de viagem ou jornalismo de destinos, o pouco que havia absorvido de Lisboa – enquanto cidade visitável – começa e terminava na luz. A luz que não é a do futebol; é a luz literal. Li ou ouvi que a luz da cidade-centro tinha algo que as outras não tinham – uma espécie de efeito irradiador da arquitectura lisboeta.

Não estive muitas vezes em Lisboa. E das poucas que estive ou faltara-me a disponibilidade de a ver ou o tempo negara-ma.
Hoje, final de tarde, via-a. É bela, sim.

Mas não tanto como a luz que vi, à noite, do topo de um hotel alto. Vi a luz da serenidade depois de uma quase tempestade, irrecuperável, devastadora, destruidora de um tudo a que, sei, ainda tenho por direito durante uns largos anos.

Deve ser da crise

O ambiente é de ferro, é duro e pesado. Nada se salva. Discute-se, grita-se, explode-se. E pouco mal teria se fosse pontual, se fosse apenas hoje e não amanhã e depois de amanhã e depois depois de amanhã. Destrói-se, incompreende-se, desliza-se para a insanidade social mas também familiar.

Deve ser da crise.

Não se assume um erro como um erro. É antes um furacão de lesa pátria, incorrigível, incontornável, inultrapassável, sem remendo que valha ou ponto de recuperação, como nos sistemas operativos.

Deve ser da crise.

O carro destacionado, a panela no armário alheio, a relva descortada há demasiado tempo, o cão desveterinado. Tudo é um drama. O comezinho deixou de ser comezinho. O comezinho é assunto de Estado, porque jamais reparável, jamais recuperável.

Deve ser só da crise.

Com as etiquetas , ,

Como um carro

imageEste espaço, este blog, como outros incontáveis, são ainda um mistério da Internet. Criamo-los com um ou dois ingénuos cliques, um email e uma password. E de repente, um mundo ali, de publicação, do visível e do partilhável, sem quê nem regra. Um post hoje, outro ainda hoje. Outro amanhã, outro para a semana e outro para o próximo mês.

Depois, o vazio. Um blog, criado sem pinga alguma de esforço, torna-se num vazio de actualizações. Posts vergonhosa e descaradamente antigos. Um blog como um carro: muito uso enquanto novo, trancado e esquecido depois de velho.

Um carro velho, aparentemente inútil como este blog. Último post? Ainda de este ano – menos mau – mas de Fevereiro. Triste.

Hoje, 8 de Setembro, novo post. Triste, mas ainda assim menos.

Com as etiquetas , ,

Largo de São Domingos

Fotografia0033

Fica difícil resistir ao Largo de São Domingos. Sem vida assinalável durante muitos anos, talvez demasiados, agora revela-se um local apetecido. Pela dimensão, reduzida e por isso aconchegado, mas por várias outras. Desde logo pelo Tea Point.
Criado, o conceito, por duas amigas apaixonadas pelo chá e o interior por Paulo Lobo, o Tea Point seduz pelo espaço e pela comida. Mas também pela simpatia de quem dá a vida ao projecto e recebe os visitantes. O Museu das Marionetas, no final da Rua das Flores e a Escola Superior Artística do Porto (ESAP), no coração do Largo, animam o local.

A medo, um atrás do outro, estes espaços e estas pessoas replicam uma verdade: o Porto de hoje é uma cidade melhor; menos provinciana mas sem cosmopolitismos bolorentos; mais viva mas sem euforias; mais cheia sem ser claustrofóbica.

Com as etiquetas , ,

Pequenas coisas

As estórias que imagino, sobre eles, devem ser tão falaciosas como a circunstância que as explicaria caso eu as conhecesse. Facto que não me deixa menos deslumbrado, devo admitir, com os dois livros usados que comprei, numa pequena feira dedicada.

“Os Palhaços de Deus” de Morris West e “O Padrinho” do siciliano Mario Puzo são a razão.

Um final de tarde, dois clássicos e um enriquecer da biblioteca a preço simbólico. Cada, 1,5€. Fico deslumbrado cada vez mais com o conceito de usado. De repente, por não ter tido apenas um dono, o valor a pagar por um qualquer objecto dilui-se e desce vertiginosamente como uma gota num vidro embaciado.

Destes dois livros a trama é outra. Mais do que objectos usados, são um muito por quase nada num tempo em que nunca houve tão pouco por tanto.
A juntar a isto, um cheiro a alfarrabista intocavelmente preservado, com um brilho de umas páginas bem amarelas, ao jeito de aguardente velha, com uma textura que não é mais do que um indício do seu uso.

Com as etiquetas , , , , , ,

Os Obamas

A fotografia dos Obamas revela uma outra realidade, que poderia ser chamada das possibilidades ilimitadas da verdadeira reciprocidade, de um casamento que desafia as definições mais rígidas. O casamento dos Obamas encanta e atrai tanta gente porque parece tão confortável que ninguém está preocupado com quem usa as calças lá em casa – e essa é a realidade de muitos dos casamentos felizes. Num casamento saudável, os parceiros não interpretam simplesmente os papéis tradicionais do seu género, reproduzindo a trama de obediência e fidelidade: inventam os seus próprios papéis da maneira que melhor serve o interesse de ambos. O casamento é improvisação, e cada caso é um caso único. A variedade abunda, e as pessoas adaptam-se.

Trecho da notícia Público/The Washington Post sobre como uma fotografia se insufla de narrativas

 

Com as etiquetas , , , , , , , ,

Vespa ou uma estória incrível

Imagem

“Tal como os pequenos carros do pós-guerra a Vespa destinava-se a uma população sem grande poder de compra e com necessidade de um meio de transporte barato e versátil para o dia a dia. Mas, enquanto quase todos tiveram uma vida efémera, o pequeno velocípede conheceu um sucesso imediato e uma expansão meteórica. Tornou-se sinónimo de liberdade, mobilidade e de um novo estilo de vida informal e descontraído. Ao volante de uma Vespa esquecia-se as as agruras da guerra, a recessão económica, os problemas sociais. O que nos dias de hoje continua a fazer todo o sentido (…).”

(texto da página da Goldmud)

Com as etiquetas ,

Pobre Porto

 

O jornal Público extermina amanhã, oficialmente, a secção local Porto do seu jornal.

Não percebendo bem o que se passa com o meu Público – digo meu porque sinto por ele uma espécie de amor extravasante, pela qualidade e sobriedade que lhe reconheço (ou reconhecia) -, confesso-me triste e desolado.

Recordo as leituras que faziam daquela secção e que me davam tanto gozo.
Vivo, por memória, os tempos em que comprei o Público (Edição Porto) na estação de comboios, no aeroporto, ou perto de casa e o fui ler para fora da cidade, para paragens mais ou menos distantes. Como sabia bem ler o que se passava no país e no mundo e depois chegar, já perto do final do diário, à secção Porto. Como é bom lermos a nossa cidade. E eu li-a. Na secção local Porto. Que espanto eram os textos do Jorge Marmelo e de alguns outros.

Amanhã talvez volte a ler o Porto no Público. Pela última vez.

Ou talvez nem me dê ao trabalho. Por luto.

 

 

 

Com as etiquetas , , , , , , , , ,

Facebook

Depois de uma aguerrida luta contra a criação zuckerbergiana, o Coffee Break junta-se aos mil milhões que perdem tempo no Facebook. A ver vamos.

Sobressalto geracional

Dizer que nós, jovens, somos a geração mais bem preparada, mais culta e mais capaz de sempre é já um lugar-comum. Mas não deixa de ser um ponto que nos distancia, de forma particular e decisiva, de gerações anteriores, que fizeram do amadorismo uma forma de vida – o tão chamado “desenrascanço”.

Ler mais no P3

Com as etiquetas , , ,

“Uma cidade chamada Porto” ou um sublime acaso

[vimeo http://vimeo.com/21698583]
Com as etiquetas ,

Admito

Deste blog, tragicamente baptizado que não na Língua de Camões, guardo para mim, com um orgulho genuíno, um aspecto da linha editorial do Coffee Break. Algo que havia conduzido até há pouco tempo o destino dos posts não-profissionais: o facto de nada deverem a pessoalismos. A primeira pessoa, o eu. O vivi, o fui, o sorri, o comi, o bebi. Não estavam, não existiam. Não os queria por cá. O li, o escrevi, o comentei, o conheci, o estudei. Vezes raras os usei. Não os considerava necessários. Mais do que isso: não os considerava adequados. Por que haveria de os usar? Que têm a ver os poucos que passam por cá com a minha vida? Não que não a queira contar – não quero, de facto – mas simplesmente porque dizer que um blog é um espaço de um para todos é mentir. Um blog é um espaço de todos para todos. Um espaço público, portanto. E não usar pessoalismos é respeitar esse espaço comum.

Ou então não.

Ou então pode haver um equilíbrio entre o público e o privado: um quê de pessoalismo ali e acolá, uma deriva egoísta de um blog aberto; e o original sentido do blog, de coisas sobre a coisa pública, sobre todos. Ou quase.

Sempre Pedro Mexia

As Quintas de Leitura estão de volta e em grande. Um estrondo cultural, com o sempre Pedro Mexia – um poeta de talento sem-fim e uma fonte inesgotável de conhecimento e cultura extemporâneos.

Depois, momentos diversos. Leituras, claro, momentos entre leituras, performances, ilustrações e um concerto com os B FACHADA.

Uma experiência total, portanto, e a ansiedade da espera.

20120922-025658.jpg

A Leça de Siza

Quem cresce pelo Porto e passeia, inevitavelmente, pelas margens do Douro parece reduzido – num sentido muito extenso do termo – a dois ou três lugares.

Na margem direita – a que vê os intermináveis telhados das caves, a que assiste ao exaustivo crescimento de Gaia ou a que se deixa captar pelo interminável Quartel da Serra do Pilar -, escolhe-se entre a velha, clássica e burguesa Foz ou, em alternativa, a nova Matosinhos, de passeios largos e praia que beira Leixões.

Na margem esquerda – a que se regala com a mais bela vista da cidade portuense, a que se encanta com a pequenez das casas ribeirinhas ou com o luminoso Viaduto do Cais das Pedras em Massarelos -, a escolha prolonga-se do Cais de Gaia até às praias de bandeira azul, em Canidelo, Madalena e por aí adiante.

Se se esquecer que o Douro, o rio, termina onde o mar começa – naquela que poderá ser considerada a teoria mais ‘paliciana’ alguma vez aplicada à matéria de reservatórios naturais de água -, existe uma alternativa aos tradicionais locais de passeio.

Leça da Palmeira é um encanto.

É um encanto pela sua marginal, pelo farol da Boa Nova, pela praia com o mesmo nome, pela piscina das marés e pela Casa de Chá.

É um encanto pela simplicidade: do lado oposto do mar surgem uns condomínios privados, uns quantos bares e umas lojas nuns passeios subidos. Do lado do mar, depois de atravessar a rua, uma marginal larga – despida, dirão alguns -, vestida pelo pincel de Siza – dirão outros.

É um encanto, sobretudo, porque permite apreciar a obra do arquitecto Pritzker de Matosinhos, em várias perspectivas. A marginal, a piscina e a Casa de Chá são obras de Siza Vieira. Está última, nascida da genialidade do então jovem Siza, está infelizmente votada ao abandono nos útlimos anos mas com a previsão para breve de uma merecidíssima recuperação.

20120831-024700.jpg

20120831-024818.jpg

20120831-024916.jpg

20120831-024959.jpg

20120831-025045.jpg

Com as etiquetas , , , ,

Tão-só

Há umas semanas, poucas, no aeroporto, quando o dia ainda não havia despertado e a hora do meu voo tardava em chegar, lia o Público dominical.

Na revista que acompanha o diário – a 2 – uma entrevista com um publicitário. Albano Homem de Melo, criador da H3, uma original cadeia de hambúrgueres.

Das frases soltas que lia, uma, mais intimista, esbateu de imediato a ideia destrutiva que alimento dos profissionais dessa ciência, a quem chamam de publicidade. Dizia Homem de Melo, sobre a longevidade da relação que mantém:

“Tenho a certeza de que é para sempre. Perguntávamos aos meus avós porque é que eles eram tão felizes, respondiam: ‘Combinámos ser felizes’. A Sofia e eu também temos essa combinação.

Quando se fala de relações, tende-se, com uma frequência desmesurada, enjoativa até, a cair em lugares comuns. Esta concepção, gentilmente partilhada, é uma verdadeira pedra no charco. Especialmente em tempos onde lutar – no sentido mais pacífico do termo – por aquilo em que se acredita e por aquilo que se projecta no futuro parece ter-se dissipado do quotidiano.

A verdade é esta: a frase não me diria nada, se a tivesse lido noutra altura. Hoje diz-me. Diz-me muito. Diz-me tudo. Também eu tenho essa sensação de um acordo – não no sentido negocial do termo, naturalmente – com alguém.

Tal como os avós do Homem de Melo – os avós e as histórias que nos deixam são do mais delicioso que a vida nos guarda – também eu combinei ser feliz. Um género de acordo do destino.

Para o entrevistado lê-se Sofia. Para mim, escreve-se Carolina. Tão-só.

A propósito de tudo

“Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação”.

Fernando Pessoa

Transumância Algarvia

20120805-163507.jpg

Nesta altura do ano – a tão falada silly season – há um fenómeno que ocorre com uma regularidade sazonal e que ultrapassa a compreensão de muitos.

Dos cerca de 10 milhões de portugueses, a minoria que faz férias opta, em grande escala, por um único destino: o Algarve.

Como se não existissem outras paragens, como se não houvesse água e areia noutro local, são as terras algarvias que, num regime de extensivo sobrelotamento, acolhem milhares apertados entre a toalha do vizinho e a fila para almoçar.

É um fenómeno triste. Não pelo destino – nada há que dizer do Algarve. É triste porque, em última análise, trata-se do desprezo, talvez pela ignorância, talvez pela indigência das aparências, de todos os outros destinos maravilhosos que compõe um país de uma riqueza natural sem-fim.

Soará mal chegar, em Setembro, ao emprego, e dizer que as férias foram passadas numa praia de Viana do Castelo? Ou na Costa Nova, onde a ria de Aveiro se cruza com o mar, num cenário marcado pelas pitorescas e coloridas casas? Ou, mais a sul, na Costa Vicentina, em pleno paraíso alentejano? Que dizer, então, das ilhas, Madeira e Açores, capazes de seduzir para a vida inteira pessoas de todo o Mundo?

O articulista Pacheco Pereira, na última crónica antes das férias (Público, 1-08-12) – acredito que as dele não sejam passadas no Algarve -, apelidou este fenómeno de forma muito curiosa. Dura, sim, mas curiosa e apropriada. Chamou-o de transumância. Que traduz um outro fenómeno: a deslocação sazonal do gado ovino…

Com as etiquetas , , ,

A densidade do jornalismo ou a pequenez de um Relvas

O Expresso continuará a investigar este caso e não terá qualquer problema em corrigir algum erro eventualmente cometido. A verdade é um termo que usamos há 40 anos e para a qual nunca precisámos de lições nem equivalências. [7-7-2012]

(Excerto do comunicado da direcção do Expresso, sobre o curioso caso de um senhor que virou doutor quatro cadeiras depois. Hoje – dizem – depois de uma fulgurante carreira como empresário, é a segunda figura de um governo, na hierarquia, e a primeira na escala do insólito.)

 

Da saga “Nós, portugueses, não somos bons em nada”…

Das galerias (Joana Vasconcelos) à cozinha (Chef Avillez), passando pelo palco (Marisa) ou pela literatura (valter hugo mãe), Versailles é, a partir de hoje, base do orgulho criativo e artístico lusos.

ImagemImagemImagemImagem

Política e futebol. Como não?

Discute-se, por estes dias, com alguma intensidade, a relação entre o futebol e a política.

As opiniões dividem-se entre os que consideram não haver relação alguma entre as ciências, e os que a vêem como uma inevitabilidade.

Para mim, que não dediquei um tempo especial à questão, parece-me que os segundos têm um argumento forte: Alemanha e Grécia defrontam-se na próxima semana, nos quartos-de-final do Euro.

Será só um jogo de futebol?

Tozé Seguro

Imagem

Em Ciência Política, “António José Seguro é aquilo a que se chama de um choninhas”. As palavras são de Ricardo Araújo Pereira.

Para Vasco Pulido Valente, o líder da oposição é um “seminarista acanhado”.

Talvez seja os dois. Talvez seja até mais: o líder da oposição cujos níveis de carisma e empatia batem mais no fundo.

Fica a ideia de que, neste momento particular, ter um líder da oposição fraco é mau mas que se torna intragável pensar que o mesmo pode ‘saltar’ para primeiro-ministro.

O velho não presta

Quando estamos intoxicados pela ideia de que o novo é, por definição, melhor, perdemos tudo.”

Rob Riemen in 2, de 29 de Abril de 2012

A esperança reacendida

É bom chegar às estatísticas do blog e ter um indício que a minha passagem pela blogosfera não é um mero falhanço. O dia 2 de Abril – um dia depois da ode à mentira, para meu descanso – foi prodigioso. 139 visitas em 24 horas.

Depois vem a ironia. O porquê deste boom explica-se em duas coisas – na falta de melhor palavra. Primeiro: praxe, um tema que recorro com frequência pelo repudio que nutro pela prática mas que é, naturalmente, popular. Segundo: Facebook, rede social que absorve almas e imaginação a um ritmo interessante, deixando um rasto de alienação e acefalia assinaláveis. Ainda assim, pela sua amplitude, é capaz de propagar com alguma voracidade posts em blogs mais ou menos desconhecidos.

Resultado? Dois posts sobre praxes, partilhados no Facebook por alguém, são capazes de reacender a esperança a um blogger mais ou menos conformado com a sua condição de jogador da liga de honra.

 

Dux Veteranorum da Universidade de Coimbra adopta Acordo Ortográfico próprio

Quem lê o documento acima exposto, ainda sobre o tema do post anterior, fica extasiado com tanto protocolo. O comunicado, que circulou pelas redacções, intitula-se “Informatio”, é da autoria do “Magnum Consilium Veteranorum”, ou “Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra” e foi escrito nos “Paços do Academia”. Muito bom.

A certa altura, quase no fim, pode ler-se:

Relembra-mos também que todos os Caloiros/as têm direito a um Código da Praxe da Universidade de Coimbra, tendo para isso apenas de se deslocar à Sala do Conselho de Veteranos onde lhe será entregue.

“Relembra-mos”? Será um acordo ortográfico próprio – nem o novo, nem o antigo – que dita um travessão naquela palavra que sempre vi escrever “relembramos”?

Percebe-se, assim, o porquê do mesmo comunicado terminar com a seguinte frase:

“Cum bona gratia Magnum Concilium Veteranorum dimittere”

Afinal, em latim – ou lá o que é – poucos são os que dão erros e ainda menos os que os detectam.

É a integração, estúpido!

Notícias recentes dão conta do que há muito se sabe: as praxes académicas seguem o rumo de uma interpretação inquinada, promovidas por acéfalos cuja ocupação – não sendo a de trabalhar, nem a de estudar – acaba por ser a mais medíocre a que um ser humano se prova: a humilhação.

Em Coimbra as praxes estão suspensas. Ao que parece, numa quinta-feira, por volta das 4h manhã, duas caloiras do curso de Psicologia recusaram assinar um ‘documento’ de rejeição de praxe. Em resposta, um energúmeno do 3º ano de Ciências da Educação agrediu as alunas com cabeçadas e bofetadas. Acabaram no hospital e, mais tarde, no Instituto de Medicina Legal.

Que ‘documento’ é este? Segundo a notícia do JN, o mesmo, se assinado, impediria as alunas de participar nas actividades académicas dos próximos anos. Pasme-se: alguém, com mais matrículas e com um papel na mão – provavelmente escrito naquele pseudo-latim ridículo -, pensou que teria autoridade para impedir outros daquilo a que todos os alunos do ensino superior têm direito. São os mesmos que afirmam que a praxe é voluntária.

Melhor: o dux dos veteranos – leia-se: o menino com mais matrículas, mais álcool no sangue e que mais alto berra -, afirmou ao Público que decidiu “suspender a praxe de gozo e de mobilização”. Praxe de gozo e de mobilização? O que é isso?

Em resposta ao que aconteceu, os docentes de letras da Faculdade de Coimbra criaram uma petição com o objectivo de interditar certas praxes.  “Há práticas que violam a liberdade e dignidade de cada um, com um carácter profundamente sexualizado, com linguagem fortemente obscena, e são violentas”, justificou Catarina Martins, uma docente e promotora do abaixo-assinado que acrescentou o essencial:

“(…) tais práticas, dentro e fora das instalações da faculdade, põem em causa a imagem da instituição, e são atentatórias “ao que deve ser a universidade e a sua função”, de educação para a cidadania, promoção dos direitos individuais, do saber e do sentido crítico.

Não será de estranhar que os docentes estejam desconfortáveis com a praxe. O que os professores fazem dentro das salas, os ‘doutores’ desfazem fora delas. O que uma Universidade, no seu conceito lato, promove, os ‘doutores’ despromovem nas suas praxezinhas e teatrinhos.

I Noites de Ronda

20120309-195018.jpg

Eu que até não gosto de multidões vestidas de preto: hoje, na Praça dos Leões, noite de serenatas com quatro tunas convidadas, do Minho a Viseu.

É a primeira edição do festival “Noites de Ronda” e tem um objectivo nobre: juntar várias gerações de alunos universitários. A organização está a cargo da tuna da Faculdade de Medicina da UP.

Depois de ter dado um contributo para o evento – coube-me escrever algo sobre a iniciativa no semanário Grande Porto – vou “tirar a prova”, hoje à noite.

Verdade ou Consequência?

20120309-125831.jpg

Um dia para estar em off. Para pensar, para reflectir, para fazer um balanço. Da família ao trabalho, da universidade à política, o próximo dia 24 de Março vai ser produtivo.

Capítulos

O processo de leitura é curioso. Vão-se ganhando mecanismos, rituais, hábitos, que se adensam quando as leituras se prolongam pelo tempo e pelo espaço. Mais pelo primeiro, do que pelo segundo.

Quanto a mim, que não leio tanto quanto quero, adoptei um hábito expedito: raramente volto a ler o lido.
Salvam-se excepções raras – quando uma frase impressiona, um trecho cativa, de tal forma que hipoteco a leitura posterior e renasço a anterior.

Às outras leituras dou-lhes uma oportunidade. Leio-as e continuo.

Afinal, são umas décadas curtas e fugazes aquelas que temos disponíveis. E o tempo está a contar. Ele que não se compadece com leituras demoradas, persistentes, merecedoras.

O erro está em não virar a página. Em gastar o tempo num único capítulo que, afinal, se mostra uma decepção.

Ferro e plástico

Uma luta desigual.

Mulheres

– Quem me dera ser velho e não querer saber destas coisas. As mulheres só atrapalham, não se sabe como lhes pegar. Mas é horrível estar sem elas. Mulheres de mãos compridas e cabelos soltos. Gosto tanto delas e estou aqui fechado quando lá fora tudo está cheio de mulheres de todas as cores e feitios”.

Agustina Bessa-Luís, A Alma dos Ricos, 2002

Com as etiquetas , , , ,

Revista: primeira impressão

Saiu hoje a edição renovada da revista Única – que agora se chama Revista – publicação que acompanha o semanário Expresso. Fica a ideia inicial de que ganhou pouco em termos de conteúdos novos, apesar da qualidade ser a mesma. A divisão tripartida mantêm-se – os ‘pratos’, ‘entradas e ‘sobremesas’ deram lugar ao ‘login’, ‘exlibris’ e ‘logout’ – e a aposta no digital e nos new media parece mais forte.

20120107-033608.jpg

No painel de cronistas, nota negativa para a aparente saída de Nuno Markl, que brindava os leitores com artigos verdadeiramente criativos, ou não estivéssemos a falar do autor que idealizou a Caderneta de Cromos. Entram alguns novos cronistas mas mantêm-se Clara Ferreira Alves, Luís Pedro Nunes e Henrique Monteiro, este último sob o pseudónimo Comendador Marques de Correia.

Na edição iPad, a qualidade gráfica é a mesma – soberba, portanto-, apesar da escolha de cores menos discretas. A navegação é intocável, sem erros aparentes.

O tema de capa não podia ser mais oportuno: grande entrevista a Horta Osório, presidente do Lloyds Bank, que regressa ao activo na segunda-feira, após um episódio de overworking.

20120107-033727.jpg

Com as etiquetas , , , , , , , , ,

Pessimismo

Os dias em cheio, no sentido mais amplo e corriqueiro do conceito, padecem de dois problemas. A saber: acabam e são raros.

Com as etiquetas ,

Isso é lá coisa de contemporâneo citadino

(…) exercício estilístico, assim ao jeito de uma antropologia lúdica e dada ao piadismo sobre beatas e padrecos. Mas isso seria o mesmo que ficar na posição cómoda do engraçadista pós-moderninho. Seria um acto de cobardia.”

[Henrique Raposo, no Expresso de sexta, dia 30 de Dezembro, sobre os que acham que ser católico e viver no século XXI é uma incompatibilidade]

Um Natal selectivo, de Passos Coelho ao Foursquare

A gerência do blog Coffee Break sugere e deseja uns votos de um Natal selectivo:

Àqueles que, por uma qualquer razão têm ligação ao blog, sejam leitores, associados, comentadores, visitantes ocasionais, visitantes por engano, visitantes por obrigação ou mesmo aqueles que por aqui passam por prazer, um excelente Natal.

Aos que desempenham funções na área da publicidade, quer na docência, quer no mercado de trabalho, e fazem disso profissão – perdoai-lhes, senhor, que eles não… -, um Natal muito….criativo.

A Passos Coelho, que suponho nunca ter visitado tão belo e humilde espaço virtual, como o Coffee Break tenta ser, um Natal que lhe inspire a manter a honestidade quando o assunto envolve dar más notícias a funcionários públicos.

Ao FourSquare, essa ferramenta que brotou de uma mente cuja imaginação não estabeleceu limites, e sem a qual não saberia que a @linadascouves esteve ontem na discoteca Bombaím às 23:58 e o @rogerioLM frequenta o mesmo café que eu, mas a uma hora diferente, um bom Natal at @Casa perto da lareira mesmo ao lado do avô que ouve mal do ouvido esquerdo e que manca em dias de frio da serra

Por fim, mas não menos importante, ao D. Duarte Pio de Bragança, figura maior da nossa sociedade, cujo papel de inequívoco relevo ninguém poderá, em momento algum, negar.

Ninguém é racista (II)

O mesmo taxista, lisboeta, sobre o mesmo tema e sempre com o preâmbulo ‘isto não é ser racista’: “(…) sabe qual é o problema? Eles apanharam muito sol quando nasceram e depois estão habituados à selva. Isto da cidade para eles é uma confusão.”

Com as etiquetas , ,

Ninguém é racista (I)

Dizia-me ontem, em Lisboa, um taxista, sobre a cidade ter muitos imigrantes de raça negra: “Isto não é racismo mas se eu os vir [aos imigrantes negros] na passadeira, para mim são alcatrão”.

Com as etiquetas , ,

Kits de experiências

O mundo contemporâneo é um kit de experiências. Daqueles que se vendem nas livrarias, junto ao balcão. Dentro daquelas caixas vêm viagens de balão de ar quente, noites românticas a dois, em hotéis de charme, massagens nos melhores spas e muitas outras experiências que mostram o que de melhor a vida tem para oferecer. Dentro daquelas pequenas e coloridas caixas, de plástico duro, palavras como crise, depressão, negativo, pessimismo ou apreensão não fazem eco algum e significam coisa nenhuma. É um mundo encantado.

A comunicação – e a palavra, no seu sentido mais amplo -, transformaram-se em kits de experiências. Ridiculamente acessível, inocuamente reflectida e incompreensivelmente simplificada, hoje a comunicação faz-se em modo ‘pré-primária’, através de imagens e símbolos, para que o cérebro – tão ocupado com outros afazeres – não tenha de se debruçar sobre o significado das coisas.

A palavra foi suplantada pela imagem, esta última que atrai de forma inequívoca mas que explica pouco e faz pensar ainda menos quando caminha sozinha, sem o seu companheiro-mestre, que é a palavra.

Abandonou-se a “cultura do equilíbrio” de que falava Manuel Alexandre Júnior, e adoptou-se uma filosofia puramente imagética que terá consequências desastrosas, na mais optimista das perspectivas futuras. Se os jovens de hoje não tiverem a capacidade de perceber que uma imagem não vale mais do que mil palavras, perder-se-á uma ou mais gerações. Constituirão um conjunto de seres acéfalos que dirão ‘não’ perante uma obra ou uma peça teatral – que lhes permitiria pensar, reflectir, crescer e progredir – e dirão ‘sim’ quando confrontados com a superficialidade da televisão e dos seus conteúdos, com o cinema sem raíz ou com as redes sociais em que até para dar uma opinião não é necessário usar a palavra. Basta clicar em ‘gosto’.

[comentário sobre o texto ‘Eficácia Retórica: A palavra e a imagem’, de Manuel Alexandre Júnior para a cadeira de Gramática e Laboratório de Comunicação III]
Com as etiquetas , , , , , ,

Assustador (I + II)

19% da população portuguesa corresponde a 1 milhão e meio de pessoas?

Com as etiquetas , ,