Tag Archives: mundo

Deve ser da crise

O ambiente é de ferro, é duro e pesado. Nada se salva. Discute-se, grita-se, explode-se. E pouco mal teria se fosse pontual, se fosse apenas hoje e não amanhã e depois de amanhã e depois depois de amanhã. Destrói-se, incompreende-se, desliza-se para a insanidade social mas também familiar.

Deve ser da crise.

Não se assume um erro como um erro. É antes um furacão de lesa pátria, incorrigível, incontornável, inultrapassável, sem remendo que valha ou ponto de recuperação, como nos sistemas operativos.

Deve ser da crise.

O carro destacionado, a panela no armário alheio, a relva descortada há demasiado tempo, o cão desveterinado. Tudo é um drama. O comezinho deixou de ser comezinho. O comezinho é assunto de Estado, porque jamais reparável, jamais recuperável.

Deve ser só da crise.

Anúncios
Com as etiquetas , ,

Pequenas coisas

As estórias que imagino, sobre eles, devem ser tão falaciosas como a circunstância que as explicaria caso eu as conhecesse. Facto que não me deixa menos deslumbrado, devo admitir, com os dois livros usados que comprei, numa pequena feira dedicada.

“Os Palhaços de Deus” de Morris West e “O Padrinho” do siciliano Mario Puzo são a razão.

Um final de tarde, dois clássicos e um enriquecer da biblioteca a preço simbólico. Cada, 1,5€. Fico deslumbrado cada vez mais com o conceito de usado. De repente, por não ter tido apenas um dono, o valor a pagar por um qualquer objecto dilui-se e desce vertiginosamente como uma gota num vidro embaciado.

Destes dois livros a trama é outra. Mais do que objectos usados, são um muito por quase nada num tempo em que nunca houve tão pouco por tanto.
A juntar a isto, um cheiro a alfarrabista intocavelmente preservado, com um brilho de umas páginas bem amarelas, ao jeito de aguardente velha, com uma textura que não é mais do que um indício do seu uso.

Com as etiquetas , , , , , ,

Os Obamas

A fotografia dos Obamas revela uma outra realidade, que poderia ser chamada das possibilidades ilimitadas da verdadeira reciprocidade, de um casamento que desafia as definições mais rígidas. O casamento dos Obamas encanta e atrai tanta gente porque parece tão confortável que ninguém está preocupado com quem usa as calças lá em casa – e essa é a realidade de muitos dos casamentos felizes. Num casamento saudável, os parceiros não interpretam simplesmente os papéis tradicionais do seu género, reproduzindo a trama de obediência e fidelidade: inventam os seus próprios papéis da maneira que melhor serve o interesse de ambos. O casamento é improvisação, e cada caso é um caso único. A variedade abunda, e as pessoas adaptam-se.

Trecho da notícia Público/The Washington Post sobre como uma fotografia se insufla de narrativas

 

Com as etiquetas , , , , , , , ,

Ninguém é racista (I)

Dizia-me ontem, em Lisboa, um taxista, sobre a cidade ter muitos imigrantes de raça negra: “Isto não é racismo mas se eu os vir [aos imigrantes negros] na passadeira, para mim são alcatrão”.

Com as etiquetas , ,

Kits de experiências

O mundo contemporâneo é um kit de experiências. Daqueles que se vendem nas livrarias, junto ao balcão. Dentro daquelas caixas vêm viagens de balão de ar quente, noites românticas a dois, em hotéis de charme, massagens nos melhores spas e muitas outras experiências que mostram o que de melhor a vida tem para oferecer. Dentro daquelas pequenas e coloridas caixas, de plástico duro, palavras como crise, depressão, negativo, pessimismo ou apreensão não fazem eco algum e significam coisa nenhuma. É um mundo encantado.

A comunicação – e a palavra, no seu sentido mais amplo -, transformaram-se em kits de experiências. Ridiculamente acessível, inocuamente reflectida e incompreensivelmente simplificada, hoje a comunicação faz-se em modo ‘pré-primária’, através de imagens e símbolos, para que o cérebro – tão ocupado com outros afazeres – não tenha de se debruçar sobre o significado das coisas.

A palavra foi suplantada pela imagem, esta última que atrai de forma inequívoca mas que explica pouco e faz pensar ainda menos quando caminha sozinha, sem o seu companheiro-mestre, que é a palavra.

Abandonou-se a “cultura do equilíbrio” de que falava Manuel Alexandre Júnior, e adoptou-se uma filosofia puramente imagética que terá consequências desastrosas, na mais optimista das perspectivas futuras. Se os jovens de hoje não tiverem a capacidade de perceber que uma imagem não vale mais do que mil palavras, perder-se-á uma ou mais gerações. Constituirão um conjunto de seres acéfalos que dirão ‘não’ perante uma obra ou uma peça teatral – que lhes permitiria pensar, reflectir, crescer e progredir – e dirão ‘sim’ quando confrontados com a superficialidade da televisão e dos seus conteúdos, com o cinema sem raíz ou com as redes sociais em que até para dar uma opinião não é necessário usar a palavra. Basta clicar em ‘gosto’.

[comentário sobre o texto ‘Eficácia Retórica: A palavra e a imagem’, de Manuel Alexandre Júnior para a cadeira de Gramática e Laboratório de Comunicação III]
Com as etiquetas , , , , , ,

A Voz Humana

“A primeira noite dorme-se. O sofrimento distrai, é uma novidade, suportámo-lo. O que não se suporta é a segunda noite, a de ontem, e a terceira, a de hoje, a que vai começar dentro de alguns minutos, e amanhã e depois de amanhã, dias sobre dias, a fazer o quê, meu Deus?”

[de Jean Cocteau, no TNSJ até 4 de Dezembro]

Com as etiquetas , , ,

Até 13.01.12

20111111-161402.jpg

Vou fingir que não estou deslumbrado por ter acesso a de um dos melhores jornais do mundo – o The Guardian -, diariamente, sem pagar nada por isso. Até dia 13 de Janeiro, altura em que termina a subscrição grátis, serei um fiel leitor do diário. Depois logo se vê.

Com as etiquetas , , ,

Conterrâneo

Júlio Resende 1917-2011

Com as etiquetas , , , ,

“Para além da dívida”

Hoje, no Público, um artigo de leitura obrigatória, de Pedro Lomba, no espaço habitual. “Para além da dívida” refresca-nos com uma visão do investimento governativo em universidades e na formação superior em geral. Apesar do estado agravado da economia mundial, países há onde a crise não afectou a qualidade das instituições de ensino.
“A América pode estar em crise (…) Mas há um foco de poder tipicamente americano que resiste: as universidades”.

Com as etiquetas , , , , , , ,

Rocky Mountain News

Quando um jornal fecha, fecha muito mais do que uma empresa noticiosa. São histórias que terminam. São rotinas partilhadas jornal-leitor que desaparecem de uma manhã para outra. Foi o que aconteceu, em 2009, ao Rocky Mountain News. Um jornal de Denver, com 149 anos (!).

 

Com as etiquetas , , , , ,

Tecnologias…

As novas tecnologias despertam em mim dois sentimentos que estão nos antípodas: por um lado, ao romperem com as tecnologias tradicionais, deixam-se saudoso e pouco receptivo – acontece com frequência na relação papel vs. digital -, por outro, ao facilitarem e melhorarem pequenos aspectos da vida quotidiana, deixam-me impressionado e com a sensação de que elas, as novas tecnologias, só trazem benefícios.

Vem isto a propósito de uma encomenda que fiz na FNAC, em França. Dela, da encomenda, falarei num post mais à frente.
Por ora, interessa que quer a própria FNAC online, quer o serviço de transporte – neste caso, é por DHL -, disponibilizam um serviço em tempo real que vai dando conta dos locais, horas e processos pelos quais a encomenda está a passar. Melhor: essa informação pode ser remetida para o telemóvel ou para o email.
“Partiu das instalações da DHL em Paris, França”, recebi há uns minutos atrás. Estou deslumbrado.

Provavelmente este serviço já existe há uns anos, mas como só agora o uso, faço de conta que é uma nova tecnologia e deixo-me arrebatar pelo facto de as encomendas perdidas serem coisa do passado.

Com as etiquetas , , ,

Perda

Maria José Nogueira Pinto reunia características raras em política, mas igualmente raras na natureza humana. Uma delas era a frontalidade genuína. Aquele tipo de frontalidade que não existe para impressionar, para chocar. Existe, simplesmente.

Uma perda profunda.
[1952-2011]

Com as etiquetas , , , , , , ,

Cidades

“Gondomar clama por um parque da cidade.”
por Luís Alves

[in Público, 22.4.11]

Com as etiquetas , , , , , , , ,

Cacharros

” (…)

To own one of these vintages, known as cacharros, or less commonly, bartavias, in Cuba defines who you are, how you spend your time and how you wish to be known. When your plugs don’t spark, when a faulty brake line can’t be repaired, when your engine sputters into a coma, when you run into any of Ricardo’s difficulties, you fabricate the equipment yourself, share with a friend, buy from a stranger. Or you put your car on blocks until the right part appears the next day, month or year. But when your motor purrs, when you accelerate effortlessly from second to third gear, when the doors click into place, you momentarily forget your difficulties and glide for blocks with a prideful smile, until you inevitably run into one of Ricardo’s multiple problems. Could there be a more appealing metaphor for today’s Cuba than cars from yesterday’s America? “

[ Tom Miller, autor de “Trading With the Enemy: A Yankee Travels Through Castro’s Cuba.” ]

Com as etiquetas , , , , , , , , ,

Japão

O Japão foi hoje abalado por um sismo que teve entrada directa para o 5º lugar, da lista dos maiores sismos de sempre.

Todos os problemas se esmorecem quando comparados com um grito descomunal e desmedido da força natural.

(Fotografias: Reuters)

Com as etiquetas , , , ,

Deixámos de ser pessoas

Nós, europeus por referência geográfica e europeístas por convicção, deixámos de ser pessoas. Deixamo-nos encantar pelos privilégios de viver no velho e rico continente. Deixamo-nos sorver por uma aristocracia aparente e volátil. Demasiado volátil.

Certo é que os países do sul padecem mais deste vírus dos que os do norte. Talvez pelos hábitos ancestrais, talvez pelos valores base em que nos sustentámos, a realidade é que nós, especificamente, os portugueses, atirámo-nos para este estado apático e bacoco como alguém se atira para o sofá no final de um dia intenso de trabalho. E por lá ficámos.

Este fenómeno que dilacera já duas ou três gerações tem um efeito anestesiante no nosso bom senso.

Hoje, mais do que ontem, gastámos dinheiro porque sim.

Gabriel Magalhães, num brilhante artigo no La Vanguardia intitulado de “A neblina portuguesa”, resume assim:

“(…) foi vingando a ideia de que o projecto da Europa assentava num sistema aristocrático para toda a população. Foi assim que se deu o regresso inconsciente a uma mentalidade senhorial de outros tempos. Entrámos no século XXI a pensar com se pensava no século XVII.”

A fasquia das nossas ambições é sobejamente baixa. As universidades são hoje rampas de lançamento para um emprego, provavelmente precário, mas que é o bastante para uma vida “vivível”.

Somos pouco altruístas. Vivemos por e para nós. Abandonámos (ou nunca chegamos a ter) uma cultura colectiva que nos permitia viver melhor.

O nosso percurso de existência não se pode resumir a um “nascer-estudar-divertir-trabalhar-reformar-e-morrer”. Se assim for, é sinal de que abdicámos definitivamente uma postura de vivência em sociedade. O velho continente não suportará esse estado desinteressado e acrítico e os países emergentes serão, de uma forma desestruturada, donos de nós e do mundo.

in O Centro Social

Com as etiquetas , , , , , , , , ,