Tag Archives: valores

Pequenas coisas

As estórias que imagino, sobre eles, devem ser tão falaciosas como a circunstância que as explicaria caso eu as conhecesse. Facto que não me deixa menos deslumbrado, devo admitir, com os dois livros usados que comprei, numa pequena feira dedicada.

“Os Palhaços de Deus” de Morris West e “O Padrinho” do siciliano Mario Puzo são a razão.

Um final de tarde, dois clássicos e um enriquecer da biblioteca a preço simbólico. Cada, 1,5€. Fico deslumbrado cada vez mais com o conceito de usado. De repente, por não ter tido apenas um dono, o valor a pagar por um qualquer objecto dilui-se e desce vertiginosamente como uma gota num vidro embaciado.

Destes dois livros a trama é outra. Mais do que objectos usados, são um muito por quase nada num tempo em que nunca houve tão pouco por tanto.
A juntar a isto, um cheiro a alfarrabista intocavelmente preservado, com um brilho de umas páginas bem amarelas, ao jeito de aguardente velha, com uma textura que não é mais do que um indício do seu uso.

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Os Obamas

A fotografia dos Obamas revela uma outra realidade, que poderia ser chamada das possibilidades ilimitadas da verdadeira reciprocidade, de um casamento que desafia as definições mais rígidas. O casamento dos Obamas encanta e atrai tanta gente porque parece tão confortável que ninguém está preocupado com quem usa as calças lá em casa – e essa é a realidade de muitos dos casamentos felizes. Num casamento saudável, os parceiros não interpretam simplesmente os papéis tradicionais do seu género, reproduzindo a trama de obediência e fidelidade: inventam os seus próprios papéis da maneira que melhor serve o interesse de ambos. O casamento é improvisação, e cada caso é um caso único. A variedade abunda, e as pessoas adaptam-se.

Trecho da notícia Público/The Washington Post sobre como uma fotografia se insufla de narrativas

 

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Pessimismo

Os dias em cheio, no sentido mais amplo e corriqueiro do conceito, padecem de dois problemas. A saber: acabam e são raros.

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Ninguém é racista (II)

O mesmo taxista, lisboeta, sobre o mesmo tema e sempre com o preâmbulo ‘isto não é ser racista’: “(…) sabe qual é o problema? Eles apanharam muito sol quando nasceram e depois estão habituados à selva. Isto da cidade para eles é uma confusão.”

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Ninguém é racista (I)

Dizia-me ontem, em Lisboa, um taxista, sobre a cidade ter muitos imigrantes de raça negra: “Isto não é racismo mas se eu os vir [aos imigrantes negros] na passadeira, para mim são alcatrão”.

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Kits de experiências

O mundo contemporâneo é um kit de experiências. Daqueles que se vendem nas livrarias, junto ao balcão. Dentro daquelas caixas vêm viagens de balão de ar quente, noites românticas a dois, em hotéis de charme, massagens nos melhores spas e muitas outras experiências que mostram o que de melhor a vida tem para oferecer. Dentro daquelas pequenas e coloridas caixas, de plástico duro, palavras como crise, depressão, negativo, pessimismo ou apreensão não fazem eco algum e significam coisa nenhuma. É um mundo encantado.

A comunicação – e a palavra, no seu sentido mais amplo -, transformaram-se em kits de experiências. Ridiculamente acessível, inocuamente reflectida e incompreensivelmente simplificada, hoje a comunicação faz-se em modo ‘pré-primária’, através de imagens e símbolos, para que o cérebro – tão ocupado com outros afazeres – não tenha de se debruçar sobre o significado das coisas.

A palavra foi suplantada pela imagem, esta última que atrai de forma inequívoca mas que explica pouco e faz pensar ainda menos quando caminha sozinha, sem o seu companheiro-mestre, que é a palavra.

Abandonou-se a “cultura do equilíbrio” de que falava Manuel Alexandre Júnior, e adoptou-se uma filosofia puramente imagética que terá consequências desastrosas, na mais optimista das perspectivas futuras. Se os jovens de hoje não tiverem a capacidade de perceber que uma imagem não vale mais do que mil palavras, perder-se-á uma ou mais gerações. Constituirão um conjunto de seres acéfalos que dirão ‘não’ perante uma obra ou uma peça teatral – que lhes permitiria pensar, reflectir, crescer e progredir – e dirão ‘sim’ quando confrontados com a superficialidade da televisão e dos seus conteúdos, com o cinema sem raíz ou com as redes sociais em que até para dar uma opinião não é necessário usar a palavra. Basta clicar em ‘gosto’.

[comentário sobre o texto ‘Eficácia Retórica: A palavra e a imagem’, de Manuel Alexandre Júnior para a cadeira de Gramática e Laboratório de Comunicação III]
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Assustador (I + II)

19% da população portuguesa corresponde a 1 milhão e meio de pessoas?

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Assustador (II)

A ‘Casa dos Segredos’ é visto diariamente por cerca de um milhão e meio de espectadores.

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Exmo. Sr. Professor Dr.

Há uns meses fui fazer uma cobertura de um evento – não interessa qual, nem onde. No final, no caos dos meus apontamentos, faltavam-me uns nomes, que iriam ser necessários para a redacção da notícia. Fui falar com o responsável. Um homem de meia idade, altivo, com uma ponta de simpatia disfarçada. Enquanto lhe perguntava os nomes, notei que ele olhava para um outro bloco que tinha, onde estava escrito o nome dele.
De repente, com um sorriso tipo eu-vi-logo-que-eras-um-pateta:

– «Não é ‘Sr.’ mas sim ‘Dr.’, atrás do meu nome.» – disse ele.

Olhei para o dito bloco. De facto estava lá o ‘Sr.’ mas, na realidade, não devia estar lá nada. Nem ‘Sr.’, nem ‘Dr.’.

– «Pois» – disse eu, enquanto riscava o ‘Sr.’ e punha lá o ‘Dr.’ um pouco mais a cima. «Isto é só um rascunho mas na notícia não aparecerá qualquer título» – acrescentei, tentando explicar-lhe.

– « Ah, pois, em Jornalismo são só os nomes das pessoas, não é?», respondeu ele com uma expressão que desvendava a tristeza que lhe ia na alma por aquilo que tinha acabado de dizer ser verdade.

Numa crónica recente de Mário Crespo, o próprio surpreendia-se com com este “complexo do doutoramento nacional”, referindo-se a este como “caso único no mundo”.
No mesmo espaço de opinião, o pivôt partilhava com os leitores os dados do Wall Street Journal sobre Portugal, num artigo apelidado pelo periódico americano de “Uma Nação de Cábulas”. Nele, constatava-se que apenas “28% da população portuguesa entre os 25 e os 64 completaram o nono ano”, enquanto que noutros países europeus, esse indicadores rondam os 90%.

A questão é: se já é chato que exista um país de doutores e engenheiros, o que dizer de um país de falsos doutores e engenheiros?

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Referências

“Excluindo-nas, ou limitando-as [à História e à Literatura] a vinhetas de ciclos históricos universais e escritores giros para a criançada, Portugal resume-se ao presente, à Selecção Nacional, aos clubes, aos famosos da bola, da música popular e dos ecrãs generalistas”.

[Eduardo Cintra Torres, in Público, 2.9.11]

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“Para além da dívida”

Hoje, no Público, um artigo de leitura obrigatória, de Pedro Lomba, no espaço habitual. “Para além da dívida” refresca-nos com uma visão do investimento governativo em universidades e na formação superior em geral. Apesar do estado agravado da economia mundial, países há onde a crise não afectou a qualidade das instituições de ensino.
“A América pode estar em crise (…) Mas há um foco de poder tipicamente americano que resiste: as universidades”.

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Perda

Maria José Nogueira Pinto reunia características raras em política, mas igualmente raras na natureza humana. Uma delas era a frontalidade genuína. Aquele tipo de frontalidade que não existe para impressionar, para chocar. Existe, simplesmente.

Uma perda profunda.
[1952-2011]

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“Angélico quê?”

Recomendo a todos este artigo do meu “colega de blog”, Rafael Côrte-Real, n’ O Centro Social.

Levanta questões essenciais sobre os últimos dias e, mais do que isso, propõe-nos a reflexão acerca de um tema que, jornalística e socialmente, é assustador: a abordagem das pessoas e dos media  em relação às “estrelas emergentes” da sociedade contemporânea.

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Domingo, dia de trabalho (Diário de Bordo #6)

Domingo, 19 de Junho
Entrevista à Comissão de Festas S. Bento, em Rio Tinto

Nem todos descansaram ao 7º dia. Eu, por exemplo, no domingo último tive de trabalhar para o estágio.

Fui a Rio Tinto, entrevistar os elementos da Comissão de Festas de S. Bento das Pêras e S. Cristóvão. Trata-se de uma festividade que representa uma tradição muito antiga da cidade, que, em tempo de crise, vive sérias dificuldades quer ao nível financeiro, quer ao nível geracional. Quanto ao primeiro nível, é o dia-a-dia de um país que vive em crise absoluta. O segundo relaciona-se com o desprendimento dos mais jovens para com as festas tradicionais e, sobretudo, religiosas.

A entrevista correu muito bem. Usei pela primeira vez o telemóvel para gravar, em detrimento das notas apressadas num bloco que havia utilizado noutras situações. Depois da entrevista, ainda fiquei um tempo largo à conversa com estes senhores simpáticos e preocupados com o futuro da tradição.

Aproveitando o facto de estar em Rio Tinto e de ser domingo, aproveitei para “despachar” mais um trabalho que tenho para este mês, também relacionado com a festa: um inquérito de rua.

O balanço paralelo do inquérito é este:

1. 50 % das pessoas não quer responder;

2.  Alguns respondem mas, quando sabem que a fotografia tem de ser tirada para “validar” a opinião, recusam, inutilizando tudo o que disseram;

3. A grande maioria acaba a falar de política, mesmo quando a questão é: “O que acha da festa de S. Bento”.

No entanto, o balanço oficial é mais que positivo e a experiência que fica segue o exemplo.

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Cidades

“Gondomar clama por um parque da cidade.”
por Luís Alves

[in Público, 22.4.11]

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Cacharros

” (…)

To own one of these vintages, known as cacharros, or less commonly, bartavias, in Cuba defines who you are, how you spend your time and how you wish to be known. When your plugs don’t spark, when a faulty brake line can’t be repaired, when your engine sputters into a coma, when you run into any of Ricardo’s difficulties, you fabricate the equipment yourself, share with a friend, buy from a stranger. Or you put your car on blocks until the right part appears the next day, month or year. But when your motor purrs, when you accelerate effortlessly from second to third gear, when the doors click into place, you momentarily forget your difficulties and glide for blocks with a prideful smile, until you inevitably run into one of Ricardo’s multiple problems. Could there be a more appealing metaphor for today’s Cuba than cars from yesterday’s America? “

[ Tom Miller, autor de “Trading With the Enemy: A Yankee Travels Through Castro’s Cuba.” ]

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Isto

A mescla de acontecimentos que tem vindo a ocorrer no quadro político português – que tem a demissão do primeiro-ministro como exemplo maior -, deixa-nos, uma vez mais, a vaguear pela espuma dos dias.

Vale a pena socorrermo-nos de um sempre útil dicionário para esclarecermos um ponto que será interessante de ser conhecido por todos, sem excepção.

Política: “s.f. ciência ou arte de governar uma nação; arte de dirigir as relações de um estado com outro.”

É assim que consta no dicionário. A política como uma ciência ou arte. Interessante conceito este que junta dois sub-conceitos tidos frequentemente como díspares.
A arte, por seu lado, como a exaltação de um estado mais ou menos raro em que o Homem se liberta e se exprime. Por outro, a ciência, como algo rígido e axiomático em que nos fundamos como ferramenta para perceber melhor o que nos rodeia.

Não será por acaso que a política congrega duas áreas opostas. Entre outras razões, poder-se-á explicar pela casta nobre em que a política se insere e pela função primordial que desempenha junto daqueles que representa.

De facto, em Portugal cavalgamos para um afastar progressivo do conceito original de política e o resultado é esta amálgama de decisores de índole política que beiram o diletantismo.

Diogo Vasconcelos, director internacional da CISCO, relembrou numa conferência na Nova de Lisboa que no Reino Unido, país onde exerce as suas funções, as pessoas constroem e sedimentam uma carreira académica e profissional e só depois, se dedicam a uma tarefa política porque só nesse momento teriam algo a dar aos seus concidadãos.

Porque é disto que se trata: de dar um contributo intelectual, cultural, pessoal e de trabalho ao país e aos cidadãos.

Esse contributo deve partir de individualidades que sejam do que melhor há na sociedade. Pessoas que tenham excelentes níveis culturais, académicos e valores intrínsecos como o da honestidade e o da integridade. Não se trata de distinguir as pessoas nem tão pouco de elitismos. Trata-se sim de ter uma escolha criteriosa daqueles que são os mais habilitados a representar e a tomar decisões que são de todos e que a todos diz respeito.

Nesse sentido, a política não deve ser nunca uma profissão. E o que mais temos são carreiras que floresceram de uma fonte puramente política. Esse é, talvez, o sinal mais preocupante do estado das coisas.

A política, nessa ambivalência que é a arte e a ciência, deve saber integrar decisores que bebam constante e recorrentemente de fontes históricas, filosóficas e sociológicas. Porque sem essas ciências basilares, a política é uma nulidade. É um confronto vazio de jogos políticos e de crianças que discutem estratégias em tom baixo para o “adversário” não escutar. São personagens que encenam um papel que não conhecem. Que se digladiam num confronto pessoal a que nós, que esperávamos um confronto de ideias, assistimos tristemente.

in O Centro Social e Jornal Vivacidade

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Deixámos de ser pessoas

Nós, europeus por referência geográfica e europeístas por convicção, deixámos de ser pessoas. Deixamo-nos encantar pelos privilégios de viver no velho e rico continente. Deixamo-nos sorver por uma aristocracia aparente e volátil. Demasiado volátil.

Certo é que os países do sul padecem mais deste vírus dos que os do norte. Talvez pelos hábitos ancestrais, talvez pelos valores base em que nos sustentámos, a realidade é que nós, especificamente, os portugueses, atirámo-nos para este estado apático e bacoco como alguém se atira para o sofá no final de um dia intenso de trabalho. E por lá ficámos.

Este fenómeno que dilacera já duas ou três gerações tem um efeito anestesiante no nosso bom senso.

Hoje, mais do que ontem, gastámos dinheiro porque sim.

Gabriel Magalhães, num brilhante artigo no La Vanguardia intitulado de “A neblina portuguesa”, resume assim:

“(…) foi vingando a ideia de que o projecto da Europa assentava num sistema aristocrático para toda a população. Foi assim que se deu o regresso inconsciente a uma mentalidade senhorial de outros tempos. Entrámos no século XXI a pensar com se pensava no século XVII.”

A fasquia das nossas ambições é sobejamente baixa. As universidades são hoje rampas de lançamento para um emprego, provavelmente precário, mas que é o bastante para uma vida “vivível”.

Somos pouco altruístas. Vivemos por e para nós. Abandonámos (ou nunca chegamos a ter) uma cultura colectiva que nos permitia viver melhor.

O nosso percurso de existência não se pode resumir a um “nascer-estudar-divertir-trabalhar-reformar-e-morrer”. Se assim for, é sinal de que abdicámos definitivamente uma postura de vivência em sociedade. O velho continente não suportará esse estado desinteressado e acrítico e os países emergentes serão, de uma forma desestruturada, donos de nós e do mundo.

in O Centro Social

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