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Um Porto percebido

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Perguntem-me, gente do mundo, o que aconteceu entre um Porto de há uns anos, poucos, e o Porto de hoje, de 2013. Perguntem-me e eu não responderei coisa alguma porque não sei, simplesmente.

Tenho memória certa dessa cidade. Conhecia-a. Era cinzenta, sim, como diziam. As ruas eram intratáveis, sim, como diziam. O Porto fechava às 19h, acompanhando o mesmo fecho de um comércio tradicional meio morto. Lembro-me bem do barulho das 19h, do Porto. Repentino, metálico, absolutamente inesperado para quem passava desatento. Vuuuuuuum!, e um estrondo seco mas estridente, no final. Eram as guilhotinas das lojas. Eram as grades de uma cidade com horário.

Tenho memória certa dessa cidade. Que tragédia. Como não percebíamos que o ouro estava ali e o tratávamos por metal barato, dado quase? Lembro-me bem: para nos divertimos – não fosse S. João ou o Porto campeão – íamos para uma zona escura da cidade, cheia de armazéns virados discotecas, sem estória, sem cidade, lugares de lugar nenhum.

De nada me serve a memória certa. Não preciso mais dela, a não ser para me lembrar ao que não quero voltar. Descobrimos o ouro, portuenses. Qual cidade cinzenta, ritmada pelo barulho das guilhotinas, sem vida, sem coisa alguma?
Desapareceu tudo, ou quase. Somos a cidade do futuro, sem jamais deixar de olhar o passado. Sabemos ser cosmopolitas sem deixar de ser bairristas, oh!, tantas cidades que não o sabem – caindo no ridículo estilo pseudo-citadino.

Somos a segunda cidade da Europa a gerar mais valorização e interesse (TripAdvisor, 2013), somos a cidade do pequeno negócio, da pequena loja, enorme, ainda assim, na inovação, na criatividade e no saber oferecer.

Somos a cidade, portuenses, que em 2013 recebeu mais de dois milhões de turistas estrangeiros que provavelmente regressarão para uma visita mais demorada, com mais amigos.

Somos uma cidade que sabe divertir-se já não em lugar nenhum. Vimos para a rua, seja nas Galerias, nos Clérigos ou noutro lugar, e mostramos que somos jovens e percebemos a cidade. Em troca damos não apenas uma cidade estrondosa aos milhões de turistas como damo-la a nós próprios. Merecemos. Foi uma conquista e tanto.

Fotografia: blog Viver o Porto

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Pequenas coisas

As estórias que imagino, sobre eles, devem ser tão falaciosas como a circunstância que as explicaria caso eu as conhecesse. Facto que não me deixa menos deslumbrado, devo admitir, com os dois livros usados que comprei, numa pequena feira dedicada.

“Os Palhaços de Deus” de Morris West e “O Padrinho” do siciliano Mario Puzo são a razão.

Um final de tarde, dois clássicos e um enriquecer da biblioteca a preço simbólico. Cada, 1,5€. Fico deslumbrado cada vez mais com o conceito de usado. De repente, por não ter tido apenas um dono, o valor a pagar por um qualquer objecto dilui-se e desce vertiginosamente como uma gota num vidro embaciado.

Destes dois livros a trama é outra. Mais do que objectos usados, são um muito por quase nada num tempo em que nunca houve tão pouco por tanto.
A juntar a isto, um cheiro a alfarrabista intocavelmente preservado, com um brilho de umas páginas bem amarelas, ao jeito de aguardente velha, com uma textura que não é mais do que um indício do seu uso.

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Investimento a fundo perdido

De todos os contratos celebrados na vida, a própria – o contracto vital, este que nos fez nascer e que nos mantém vivos – será, porventura, o pior de todos. Porque a vida é um negócio atípico. Não se ganha nem se perde. Simplesmente desaparece. E ninguém quer ver um negócio que envolve um investimento tão grande dissipar-se.

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